Nietzsche é um dos precursores do anti-humanismo, por isso, concordo que há uma impossibilidade de uma liberdade e igualdade dentro de uma leitura nietzscheana. Quanto à fraternidade, talvez ela seja possível entre os Nobres que sabem reconhecer entre eles o valor aristocrático da excelência da ação. Nos escravos, a meu ver, essa fraternidade é sempre algo de que devemos desconfiar tendo em vista a reatividade do ressentimento que pode fazer da fraternidade um artifício cínico.
Se tentarmos vislumbrar uma crítica a teoria do Estado em Nietzsche, penso que ela sempre vai ser um incômodo (singular e coletivo) para qualquer pessoa que seja seduzida pelos seus escritos. O Estado, tal como se apresenta desde sua cristianização, passando pelo modelo burguês e capitalista, se constitui mais como uma vitória do ressentimento, um acordo comum de ressentidos que vivem como uma procissão de cegos em suas neuroses buscando um dia serem sacerdotes de alguma coisa. Isto é o gozo mesquinho. Por isso a complicação de conciliar uma teoria social nietzscheana, ou algo que se compare hoje em dia, com uma exuberância da força guerreira ou criativa típica de uma sociedade aristocrática cuja excelência (Areté) é o maior bem. Talvez o último refúgio aristocrático seja mesmo o refinamento estético que ainda resiste à serialização das coisas pelo mercado, mas não sei até quando. Talvez a caverna de Zaratustra nos tempos modernos seja a caverna monomaníaca de uma solidão trágica que Freud nomeou de desamparo e que fundamenta grande parte das defesas neuróticas cuja perlaboração é condição de cura. É neste sentido que os heróis dostoiéviskianos, Robson Crusoé, Don Quixote, ou os personagens Kafkianos são tão interessantes para alguns, apesar de não serem bem modelos exatos de Grande Saúde, mas por ilustrarem essa solidão enfrentada no campo de batalha da introspectividade da crueldade humana.
Os melhores do nosso tempo, os virtuosos do mundo capitalistas, são os novos sacerdotes ascéticos. Todavia, a promessa de salvação da alma em um outro mundo, típica dos sacerdotes passados, agora se transmutou em salvação pela imediatismo do consumo que deslocou o gozo da salvação adiada para um gozo auto-erótico imediato. As ovelhas não mais são ordenadas, elas agora são administradas. Neste sentido, sim! Os melhoradores de nossa sociedade são os que perpetuam o ressentimento. Talvez seja por isso que temos atualmente toda uma tendência pedagógica que prega um ensino que deve ser prazeroso, que a criança tem que ser aprovada em qualquer circunstância, que alunos de universidade se formem sem assistir aulas, pois a presença está garantida enquanto se faz festa no bar em frente a instituição, ou ainda a massiva e maçante idéia de que devemos ser felizes, bonitos, alta performance, proativos, etc. O que está por detrás disto é uma espécie de negação da dor, ou melhor, de embotamento da coragem aristocrática de enfrentar a dor trágica inerente a vida.
O complicado em certas leituras de Nietzsche é o perigo de uma compreensão do autor a partir de uma lógica que tem o ressentimento como motor de sua racionalidade. Motor este que funciona em silêncio e camuflado pelos engodos dos feitos heróicos modernos, apresentados em tipos como o da figura do jovem milionário e bem sucedido (o do facebook por exemplo). Mas acho que ainda há resistências ante a metabolização da máquina do ressentimento, seja pela psicanálise (os poucos que mantém uma independência crítica para além de filiações com os autores), ou filosofia, ou pela arte, ou por alguma forma de racionalidade que dê com os ombros para tudo isso.
Uau!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Comentário por Francielle Gonzalz Correia Gomes — dezembro 21, 2011 @ 11:16 pm |