Em resposta a um amigo durante uma discussão sobre voto nulo e de seu caráter por vezes infantil escrevi:
Quando falo em uma infantilidade de certos marxistas me refiro a um lugar, bastante confortável, diga-se de passagem, de uma crítica que goza e só se reconhece através do objeto de crítica, mais ou menos como um adolescente que se opõe às ordens dos pais. Com certa freqüência encontro isso e não vejo nesse tipo de crítica esquerdista nada além de um lugar de antítese que retorna numa dialética, ainda mais por que a tal revolução é bem improvável. Assim, quando faço essa crítica aponto para um questionamento do lugar de onde elas são feitas, o que indica um lugar correlato ao mesmo lugar do objeto de crítica dentro de um discurso. Não há transformação, não há superação ou suspensão (Aufhebung) na dialética (para usar um termo hegeliano), pois a ordem do discurso parte sempre da mesma posição de gozo. Ao ver pessoas justificando o voto nulo por que não compartilham nenhuma das duas posições apresentadas no pleito eleitoral não estou, de modo algum, me opondo a um direito legítimo (não critico nem o direito igualmente legítimo de votar em Serra!). Mas sim, justificar o voto por que a candidata do PT não representa mais os ideais de esquerda tal como se colocava antigamente, isso me parece uma infantilidade. Principalmente diante da circunstância onde se pode eleger um facista enrustido que usa uma retórica cínica e estratégias de desinformação nos moldes do que poderíamos facilmente chamar de terrorismo ideológico. Nesse sentido, compartilho a mesma opinião do Vladimir Safatle, pois não podemos esperar uma grande revolução, e mais, ainda chamo atenção para que não podemos esperar ser reconhecidos como sujeitos só através de uma grande revolução. Logo, as pequenas revoluções, daquelas aos moldes hegelianos, que se acumulam em uma historicidade que nos dão suporte para continuar superando até uma maturidade do espírito, são necessárias no pleito e principalmente no dia a dia. Declarar uma posição política partidária, em tal candidato não significa dizer amém nem concordar com tudo que este candidato diz e faz. Declarar uma posição política partidária implica em circunscrever um lugar no campo político (ético) onde se pode questionar a própria pessoa em quem se votou. Isso é um exercício democrático. Na Grécia a política nasce nos debates entre os politikos, cidadãos da polis que se reuniam para discutir os destinos da sociedade. Neste sentido, escolher uma posição petista, nesse momento, é lutar para conservar pelo menos o direito de debater sem ser agredido pra PM (quem vive em São Paulo sabe muito bem o que Serra pensa sobre isso). Repare que nem estou entrando em dados, ou números que costumam servir a uma sedução ideológica para um lado ou para o outro. Quando ao livro do Lênin e a crítica à Rosa de Luxemburgo, não posso falar nada especificamente, pois eu não conheço a obra, mas posso falar de minha desconfiança em relação tanto a leituras que transportam situações e as sobrepõe a outras, quanto às intenções que posicionamentos políticos definidos em ideologias bem marcadas têm. Não é por que o partido Nazista era o lobo mal da Alemanha do começo do século 20 que deveriam ter esperado do partido Social-Democrata a posição que representa o Bem. Nem muito menos, identifico o PT à posição do Bem contra o PSDB. Tomar um debate eleitoral como uma dualidade de categorias morais é novamente voltar a uma dialética que flerta com o revezamento de posições que prescrevem ao seu modo o que é ou não melhor para o outro. Isso é a famosa alienação e na história colecionamos exemplos que mostram o fracasso disso, muitos deles em sistemas socialistas baseados em leituras marxistas coerentes com os interesses dos revolucionários. Aqui retomo a democracia como produção e conservação de direitos. Neste caso, a afirmação de uma ou outra posição política nessa eleição passa, sobretudo pela luta por essa possibilidade de continuar produzindo direitos pelo exercício de questionamento e debates (questionamento inclusive do PT) e é ai que eu acho que uma posição de voto nulo é se eximir da luta dentro de uma posição ideologicamente confortável, como uma espécie de implicação desimplicada. Dessa forma, ao pensar nesse cenário (bastante desanimador e perigosamente cínico da campanha atual) percebo algumas posições bem marcadas: a de direita, que fala por si só; a dos petistas encantados por uma infantilização que a figura sebastianista do presidente provoca; a dos esquerdistas que criticam de um lugar utópico que esperam a revolução que acabará com as desigualdades. Todas as três posições falam a partir de um lugar em que o agente do discurso só o é através da garantia do saber de um Mestre cuja imago se reveza em Serra, Dilma, Marx, revolução, “muros da desigualdade”, etc. como consequência temos um gozo que, ao depender do Mestre, produz um sujeito barrado. Ou seja, ao se ancorarem nas figuras dos candidatos ou as ideologias (sim! Muitas delas usadas de forma infantil!) eles se colocam dentro de um discurso que tem um Mestre como fiador do gozo. Afirmar uma posição política, que leva em conta também o questionamento do próprio candidato escolhido, implica um ato que pressupõe um sujeito (ter voz própria para a crítica, manifestação e debate de idéias dentro do próprio partido, grupo ou mesmo de si próprio) que por ser barrado já de início no discurso, tem seu gozo em um lugar próprio de onde ele pode questionar o Mestre e produzir um saber a partir disto. Saber este sempre em produção e que inscreve um nome próprio dentro das tensões que o desejo provoca no discurso. Resumindo, uma certa histeria faz bem no debate político, já que em seu discurso (da histérica), podemos relembrar um princípio político que Freud deixa claro no Mal-Estar que é o de um contínuo conflito das idéias com o próprio desejo e com o outro como consequência de uma civilidade que implica em uma perda de liberdade. Idéia que no campo político podemos encontrar em Nietzsche também ao chamar atenção para o valor dos valores morais, ou em Dostoiévski ao fazer o mesmo questionamento tanto para o egoísmo da racionalidade utilitarista, quanto para a religião cristã ocidental. Por isso, eu afirmo uma posição política sem, no entanto, me encantar com progressos econômicos do país. Devemos desconfiar sempre, mas nesse momento específico de Dilma VS Serra, o direito de desconfiar abertamente está seriamente ameaçado. Daí a importância das pequenas revoluções, uma a uma, ato a ato, dentro de uma política (não partidária/ideológica, mas de uma posição ética) em que, derrubar ídolos a marteladas, seja o auge de uma maturidade eleitoral. Isso por que nem vou entrar na discussão do caráter que os diferentes destinos do capitalismo pode tomar no estado brasileiro, que está explicitamente declarado principalmente na campanha de Serra.
Quanto à genealogia da imputação de infantilismo da esquerda, sinto dizer que o buraco é mais em cima. Não vejo, no meu caso, como circunscrever meu comentário na sua preciosa explanação, pois, nem esses autores fazem parte do meu campo de leitura, nem meu apontamento para o tal infantilismo partiu de uma origem que, até onde lembro, tenha saído da boca ou da pena de alguém. Minha afirmação se dá somente por observações de algumas manifestações (que lhe explico em outro lugar) infantis e pseudo-intelectuais que alguns esquerdistas, e de uma outra maneira, exposta na superficialidade crítica que alguns candidatos (como o Plínio por exemplo) demonstraram na campanha. Assim não há acusação histórica na minha crítica (só se for inconsciente…). Quanto às acusações que deslegitimam a esquerda (minha crítica é justamente para a esquerda que faz isso sozinha e não para um pensamento de esquerda mais crítico) temos que tomar cuidado com a assunção de recursos críticos dentro de um jogo de eficácia. Quando você cita “uma forma de estabelecer diferenças” sugere uma linha “capaz de pensar a política” através de oposições dialéticas. Se na história essa forma foi usada de um jeito ou de outro, não significa nem que ela é melhor nem pior, pois a racionalidade é instrumento do sujeito, sobretudo no campo político. Se é a partir do estabelecimento de diferenças pela dialética, ou por uma via de afirmação de da vontade dentro de um jogo de forças, não podemos esquecer que tanto um entendimento quanto o outro são formas racionais organizadas na linguagem para dar conta de realidades. Daí ser precioso a possibilidade da discussão política. É por isso que questionar a eficácia diagnóstica da esquerda é importante, até por que ela também fala e faz muitas besteiras. Nesse sentido, o que coloco aqui não é a crítica como meio de destruição, coisa que acontece na direita (principalmente) e na esquerda (pelas alienações ideológicas incapazes de uma reflexividade).
Quanto ao “voto tático”, sim, estamos diante de um momento em que ele é necessário, pois pessoalmente Serra me assusta. E vejo esse voto, na circunstância que estamos como uma espécie de redução de danos. Não posso deixar de tratar um viciado só por acho que “drogas mata!”, que é errado consumi-las, e por que o ideal seria não tomá-las. Há algo além do princípio do prazer que sustenta o vício, assim como há algo além do princípio do prazer que sustenta posições políticas, discurso, determinações de desejos, cultura, etc. Por isso, a clínica está dentro de uma política, de uma estratégia e de uma tática. Termos estes que Lacan tira de um autor da guerra chamado Clausewitz para pensar um tratamento psicanalítico. Volto a dizer, não estou falando mal da esquerda, estou apontando o esperneio de alguns que votam nulo só por que acham que assim serão mais “politizados”.
Ao citar Hegel na minha crítica, novamente, não estou com isso endossando tudo que o autor coloca, mas as suspensões ocorridas na história são muito úteis como recurso de compreensão política, clínica, histórica. No entanto, ela tem limites que muitas vezes se encontra na própria pessoa que o utiliza. No meu caso, apesar de recorrer a dialética no campo da historicidade, não concordo com o Hegel que a liberdade se dá com e a partir do Estado. Nesse ponto sou muito mais Hobbes/Freudiano, pois penso que é o estado e a civilização que vem para humanizar o homem em um processo que implica uma perda de liberdade. Por esta via podemos abordar o questionamento de Nietzsche sobre os valores morais por dar a linguagem um caráter sexualizado e sempre tendendo para uma “promessa de felicidade”. Por outra via podemos trazer a discussão sobre o gozo em Lacan. Gozo que só se apresenta pelo significante como também, justamente por esta via que ele torna impossível. Portanto, uso o Hegel de acordo com meus propósitos, afirmar isso é fundamental, pois usar um autor não é fazer reverência a ele repetindo apaticamente suas posições nem muito menos aplicando-as sem critérios.
Gosto de sua posição em relação ao Benjamin, mas ao mesmo tempo acho necessário dizer que a minha crítica ao infantilismo de alguns marxistas se aplica justamente ao que você recortou, a saber, alguns posicionamentos da esquerda, apesar de parecerem críticos e opositores, são parte da correnteza. Em alguns casos navegar contra a correnteza faz parte do curso da própria correnteza. Essa é a falta de reflexividade em alguns campos da crítica, que acabam operando um exercício de poder através da vitimização do militante, mas que mantém um discurso gozoso. Essa é a implicação desimplicada, e a posição confortável que falei a pouco. Nesse sentido, não o voto nulo que está em jogo, mas suas razões que, como coloquei, muitas vezes são bem infantis. Mas sim, concordo que ele pode ser também uma marca de diferença, assim como pode ser um voto na Dilma também (não vou considerar isso no caso do Serra por eu realmente não acredito que haja possibilidade de nenhum avanço nele).
Quanto à utopia da esquerda considero que ela tem seu lugar. Mas novamente chamo atenção para o ascetimo que ela assume facilmente. Ascetismo esse também presente na direita, pois eles, de modo geral, também devem acreditar em um mundo melhor. Mas acho que no caso da esquerda, a utopia por vezes se transforma numa crítica pela crítica, ou um exercício de questionamento baseado em um ideal que paradoxalmente aliena o sujeito. Ou seja, tomar cuidado com a utopia significa prestar atenção para não ser gozado por ela, não ser gozado por um Outro que ocupa uma mestria imaginarizada em formas diversas. Ao me referir a uma política (ética), essa ética entre parênteses serve para apontar um campo em que não podemos ceder do nosso desejo, ou seja, achar que uma ética pura que exclui o páthos do campo da ação existe é um grande engano, logo, somente levando em conta o desejo (do analista) é que se pode conduzir um tratamento na direção de um final. Assim, quando vejo opiniões guiadas por utopias, não só vejo uma pessoa que goza sendo gozada como também vejo um exercício de autoridade disfarçada de boas intenções. É daí que se segue toda uma discussão filosófica a respeito do Bem e do Mal que vem desde Sade até Lacan. Tema este que trabalhei a partir de Dostoiévski em minha tese.
Ainda no campo da utopia, acho que podemos reivindicar os 10% do PIB sim e mais, temos que encher o saco da Dilma por isso, temos que enjoar, incomodar, cobrar do governo isso. Volto a dizer, quem vota em um candidato pode e deve cobrá-lo até o fim. Aliás, quem não votou no vencedor também tem que cobrar e quem votou nulo também. Se o socialismo francês dá sintomas de falência, ou se o capitalismo americano começou a entrar em colapso, isso é prova que não existe fórmulas eficazes. Conviver com estas tensões e lidar com seus constantes resultados é importante para o amadurecimento político e para o próprio campo singular. Alguns lêem um pessimismo no texto do Mal-estar, assim como alguns lêem um pessimismo (não sei como!) em Nietzsche. Mas não vejo outros autores (existem outros também) que me apresentem um pensamento político como cura (Sorge) da cultura, ou do próprio sujeito, como eles apresentam. O pessimismo que alguns conseguem ler neles, as vezes me parece uma formação reativa diante de uma ameaça a utopia, à fantasia, a esperança (o pior dos males da caixa de Pandora!). Quando falo nesta cura me refiro a simplesmente dá uma voz ao quem fala. Voz essa que é o que eu insisto ser o fundamental no debate político, voz essa que eu não escuto no marxismo infantil em que o pseudo-crítico é falado por uma ideologia que representa um Bem. Assim, no momento em que o “salto do tigre” não é possível, no momento em que temos que evitar um mal maior, eu prefiro dá os pequenos pulos de uma criança que brinca com seriedade.