Ando com a sensação de ser estrangeiro de mim mesmo. Quando falo em “ando” pode parecer que este acontecimento é recente, mas a estranheidade é devida ao fato de perceber que o meu estrangeirismo vem de muito longe em minha vida. Sempre fui estrangeiro, deslocado, estranho – unheimlich. Descobri isso pensando na trajetória de minha vida. Quando criança meus melhores amigos e as companhias que me sentia bem foram os dogue-alemães que criava em casa. Depois foram os boxers, rotweillers, Bordeauxs, os galos de briga, os peixes, os comandos em ação. Na escola nada me interessava nas pessoas. E isto foi se repetindo até hoje. Sempre pensei que tinha um problema e, para tentar compensar, exercitava uma espécie de mimetismo das relações humanas baseados nos fatos e histórias que parecia interessar as pessoas. Mas nada disto nunca afastou de mim o sentimento de não pertencimento e de desinteresse. Cresci em uma cidade em que valores pequeno-burgueses fazem até hoje cintilar os olhos das pessoas. Não tenho críticas em relação a tais interesses, mas eles não são os meus. Imaginem viver com amigos que não são amigos, não por que eles são falsos, mas por que eles não me despertam emoções para além do formal da educação. Em outro lugar já assumi ser um “homem doente”, claramente faço alusão a Dostoiévski. Foi através de autores como este que comecei a ter companhias. Talvez o primeiro que teve grande impacto tenha sido Nietzsche, depois Dostoiévski, Freud, Lacan. Cito estes por comporem o quarteto que alinha minha visão de mundo, mas existem outros. Meu estrangeirismo ficou mais evidente de uma forma paradoxal. A partir de experiências que pude falar a mim mesmo: “é disso que eu gosto”. Todo resto de coisas que vivi, depois deste momento, caíram em suas consistências ilusórias de prazer. O vetor que apontava para o meu problema partindo do modelo de sanidade do mundo, agora, foi invertido. Das unheimilchkeit! Minha Grande Saúde apontou lá na vivência estética de algo que realmente me situou. No entanto, sou também meu passado, sou inscrito na minha própria história e não posso denegá-la. Quando falo este óbvio que qualquer um pode concordar é para assumir um laço que me prende, ainda me prende. “Deixe-me ir preciso andar”. Tento a todo instante. Pode parecer que desejo obliterar minha história para começar outra. Errado, só não quero ser estrangeiro em minha própria história. O andarilho e sua sobra não se prendem. Só se pode ser andarilho ao se desapegar de seu lugar. “E se alguém perguntar diga que eu só vou voltar depois que me encontrar”. A repetição agora engendra o novo e circula em eterno retorno, pois não há tempo a perder. Ser um homem doente não é amar a patologia, assumir isto é rir dela, é brincar com a ordem que sempre me situou justamente na incapacidade de me divertir diante das coisas que todos gostam, de gostar das músicas que todos gostam, de me interessar pelo que todos gostam. “Todos” são as almas vulgares que navegam no rio onde a crítica foi afogada. Meu caminho de andarilho me levou a lugares demasiadamente simples, levou-me a apenas às coisas que realmente me interessam. Uma delas é o simples exercício de concatenar idéias em um texto escrito. Resolvi escrever hoje depois de ler alguns blogs. Nenhum extraordinário, mas todos de mulheres que escrevem de forma desinteressadamente feminina, com beleza e delicadeza de quem flui no curso do próprio desapego à rigidez. A escrita é feminina, a beleza da escrita depende da capacidade do autor de feminilizar as palavras quando elas copulam em busca de um além do sentido desinteressado. A Lispector é quase um paradigma disto, com sua correnteza de palavras como numa polução contínua. Quando falo em desinteresse não quero dizer displicência, nem indiferença, mas sim, o desinteresse em relação à ordem rígida e formal. A forma é fisiologia, é sensualidade, é interesse sexual da carne que clama. É por isso que não há frieza nos textos das mulheres, a não ser quando elas querem o suicídio a própria beleza que nem se imagina ter. Meu elogio a escrita feminina é também um desejo de alcançá-la. O estrangeiro, Eu estrangeiro, só o é pelo aprisionamento em uma forma que o mata, me mata. As formas que me mataram e que ainda me matam são rígidas no envidramento do olhar do outro que meu eu paranóico teme em sua perseguição. O vidro frio do olho é a própria formalização do lugar que supostamente me tornaria reconhecido. Tornar-me idêntico a imagem do olho, este é a ordem. Idêntico, palavra infame. Se a substantivarmos teremos identidade, aquilo que nos dá uma idéia de nós mesmos. Qual a identidade do estrangeiro? Ele vem de fora. De onde? De algum lugar. Não sei minha identidade por que não quero mais ser idêntico. O estrangeiro e o andarilho se unem em uma só pessoa. O “milagre, o mistério, a autoridade” caíram, agora só resta meu Sendo.
junho 25, 2010
1 Comentário »
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De todos os seus textos, esse foi o que mais me tocou, afetou. Afetou… afeto! O texto está carregado de afetos. E não me é estranha a genuinidade contida nas suas palavras, pois esta é a sua mais bela virtude. É uma das mais belas virtudes de qualquer ser humano! Pelo menos assim penso.
Coincidentemente, estou em mais uma fase em que mergulho em leituras de obras de Lispector. E quanto afeto, quanta sensibilidade, quanta verdade há nas palavras dela, não?!!
“O estrangeiro de si mesmo” fez-me lembrar de um conto de Clarice, intitulado “A LEGIÃO ESTRANGEIRA”… (minhas associações foram longe)…
Eis o primeiro parágrafo do texto:
“Se me perguntassem sobre Ofélia e seus pais, teria respondido como o decoro da honestidade: mal os conheci. Diante do mesmo júri ao qual responderia: mal me conheço — e para cada cara de jurado diria com o mesmo límpido olhar de quem se hipnotizou para a obediência: mal vos conheço. Mas às vezes acordo do longo sono e volto-me com docilidade para o delicado abismo da desordem.”
Depois lembrei de dois trechos de um romance da mesma autora — “ÁGUA VIVA”:
“(…) a invenção do hoje é o meu único meio de instaurar o futuro. (…). Que mal porém tem eu me afastar da lógica? Estou lidando com a matéria-prima. Estou atrás do que fica atrás do pensamento. Inútil querer me classificar: eu simplesmente escapulo não deixando, gênero não me pega mais. Estou num estado muito novo e verdadeiro, curioso de si mesmo, tão atraente e pessoal a ponto de não poder pintá-lo ou escrevê-lo.”
“Será que isto que estou te escrevendo é atrás do pensamento? Raciocínio é que não é.”
Eu sempre vi a sofisticação como uma amiga próxima da simplicidade, Serginho. E achei simplicidade e sofisticação nesse texto. Texto leve, caloroso, informal (sem beirar o desleixo), genuíno… e distante dos “estrangeirismos de si”, que só distanciam os escritores da sua ‘verdade’!
Ah, a citação de Clarice foi feliz também! Senti um troço estranho quando li a parte que fala da escrita dela… rsrs. De forma quase ingênua, a sua escrita aproximou-se da delicadeza feminina da autora, viu?! Aproximou-se… porque não há beleza em cópias humanas, em iguais, idênticos!
“O que te escrevo é um “isto”. Não vai parar: continua.” (Clarice Lispector)
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Comentário por Taty Tavares — junho 1, 2011 @ 12:42 am |