Na ocasião da dissolução de um Cartel sobre Nietzsche e a psicanálise eu escrevi aos demais:
Cartel. O dispositivo criado por Lacan para contrapor a formação ordenada pela tradição subseqüente a Freud. Dentre outros motivos é preciso levar em conta o contexto, o zeitgeist no qual a idéia de cartel foi concebida. Esta observação aponta para a expulsão de Lacan, para a impossibilidade de manter os embates no campo epistemológico – como o próprio Lacan lamenta no Discurso de Roma -, e mesmo as questões políticas e ideológicas das quais nem a IPA nem Lacan estavam imunes.
Sua proposta é ousada e no mínimo interessante e nos remete ao que em 1956 – Situação da psicanálise em 1956 – Lacan criticava o sistema de formação da IPA. Cito Lacan: “Pois no uso que é feito dos conceitos freudianos, como não ver que a significação deles não serve para nada? E no entanto, não é a outra coisa senão sua presença que se pode atribuir o fato de a associação ainda não se haver rompido, dispersando-se na confusão de Babel.”(Escritos pp489.). Ou seja, a crítica de Lacan à IPA dá a entender que se trata de uma Babel cujo laço de união diante no desentendimento generalizado é a figura do Pai morto.
A aposta na proposta do cartel é romper estas uniões cegas, romper com o que podemos ilustrar com o quadro “Parábola dos Cegos”, de Peter Bruegel. No entanto, ainda tenho dúvidas da eficácia efetiva deste dispositivo, ou mesmo se a sua eficácia não dependeria de uma transferência com o mestre Lacan, ou com a transferência com a escola, ou algum outro mestre pertencente a ela. Na minha desconfiança existem dois elementos agudos: o primeiro diz respeito à própria condição neurótica, neste caso coloco os componentes do cartel e suas formas de fazer laço como elemento paradoxal, pois é o que une e desune. A agonística pulsional freudiana se faz presente como atual apesar de suscitar críticas. O Segundo elemento jaz na minha petulância histérica de querer sempre questionar. Por que não questionar o cartel, ou Lacan, ou Freud, ou Nietzsche? Identifico-me ao discípulo de Zaratustra que só o é assim reconhecido por questioná-lo. Neste caso o Discurso do Universitário falha, e o Discurso da Histérica, que em certa época foi identificado ao discurso científico, entra em cena.
A solidão zaratustriana do questionador tem um preço. Ela exige que se pague um preço, talvez uma libra de carne… Ou talvez mais. Todavia ela rompe com a procissão dos cegos, mas sem desnorteá-los justamente por que eles nunca tiveram norte. Agora se pode afirmar “Eu escolho meu próprio Norte”. Tal solidão não implica dizer que Nobres não se encontrem. Mas implica dizer que todo encontro de escravos é desencontro na medida em que eles são cegos que se enganam escrevendo muito e dizendo pouco (talvez eu esteja fazendo isto aqui, caso esteja, o faço sorrindo).
Com a dissolução do cartel me veio uma pergunta: será que este cartel resistiu a Nietzsche? Parto do princípio de que é impossível passar incólume à leitura dele. Neste sentido, a própria escolha do objeto de estudo do cartel pesou como mais um elemento – considero como outro elemento o atrito contingente das relações humanas – revelador da impostura que o desejo neurótico cria. O martelo de Nietzsche foi alçado ao alto, mas antes que pudesse derrubar ídolos, a precaução de mantê-los foi rapidamente escolhida como saída.
Na ética nietzscheana não cabe olhar quem quer que seja com piedade, ou compaixão. Apostar nesta via é jogar com forças para erodir a coragem e a nobreza. Na ética nietzscheana há afirmação, há “direção a um alvo último: pois este não há.” Esta direção não olha para o lamento, ou melhor, corta o olhar para o lamento do sofredor – amor fati seja este doravante o meu amor!
Mais do que usar categorias de algum autor, ou mesmo as de Nietzsche, o percurso próprio e solitário digno de um andarilho não tem compaixão com suas referências. Talvez isto seja a melhor forma de respeitá-los. Depois de destruir os ídolos e questionar o valor dos valores morais pouca coisa restará. Mas este resto é o que há de mais singular.
No nosso final confesso: “Eu sou um homem doente”, do subsolo talvez, mas minha doença, grave doença, é somente um grito de vida que, mesmo reconhecendo as ilusões do mundo, não prescinde de sentir na carne a tragédia e a comédia humana. Tragédia no sentido mesmo de ir em direção do problema, pois ele é a própria condição humana, e comédia de atravessá-lo, de tornar o tal problema uma solução, uma afirmação, um urro de uma dor e um prazer pungente.
Diante da ocasião o andarilho me surgiu na lembrança. E é com ele que termino:
“Quem chegou, ainda que apenas em certa medida, à liberdade da razão, não pode sentir-se sobre a Terra senão como andarilho — embora não como viajante em direção a um alvo último: pois este não há. Mas bem que ele quer ver e ter os olhos abertos para tudo o que propriamente se passa no mundo; por isso não pode prender seu coração com demasiada firmeza a nada de singular; tem de haver nele próprio algo de errante, que encontra sua alegria na mudança e na transitoriedade. Sem dúvida sobrevêm a um tal homem noites más, em que ele está cansado e encontra fechada a porta da cidade que deveria oferecer-lhe pousada; talvez, além disso, como no Oriente, o deserto chegue até a porta, os animais de presa uivem ora mais longe ora mais perto, um vento mais forte se levante, ladrões lhe levem embora seus animais de tiro. E então que cai para ele a noite pavorosa, como um segundo deserto sobre o deserto, e seu coração se cansa da andança. Se então surge para ele o sol da manhã, incandescente como uma divindade da ira, se a cidade se abre, ele vê nos rostos dos quais aqui moram, talvez ainda mais deserto, sujeira, engano, insegurança, do que fora das portas — e o dia é quase pior que a noite. Bem pode ser que isso aconteça às vezes ao andarilho; mas então vêm, como recompensa, as deliciosas manhãs de outras regiões e dias, em que já no alvorecer da luz ele vê, na névoa da montanha, os enxames de musas passarem dançando perto de si, em que mais tarde, quando ele, tranqüilo, no equilíbrio da alma de antes do meio-dia, passeia entre árvores, lhe são atiradas de suas frondes e dos recessos da folhagem somente coisas boas e claras, os presentes de todos aqueles espíritos livres, que na montanha, floresta e solidão estão em casa e que, iguais a ele, em sua maneira ora gaiata ora meditativa, são andarilhos e filósofos. Nascidos dos segredos da manhã, meditam sobre como pode o dia, entre a décima e a décima segunda badalada, ter um rosto tão puro, translúcido, transfiguradamente sereno: — buscam a filosofia de antes do meio-dia.” (humano demasiado humano, parágrafo 638)