Blasfêmia RS: pelo direito de escarnecer!

maio 2, 2011

Um momento anti-humanista…

Filed under: Uncategorized — blasfemiars @ 11:57 pm
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Nietzsche é um dos precursores do anti-humanismo, por isso, concordo que há uma impossibilidade de uma liberdade e igualdade dentro de uma leitura nietzscheana. Quanto à fraternidade, talvez ela seja possível entre os Nobres que sabem reconhecer entre eles o valor aristocrático da excelência da ação. Nos escravos, a meu ver, essa fraternidade é sempre algo de que devemos desconfiar tendo em vista a reatividade do ressentimento que pode fazer da fraternidade um artifício cínico.

Se tentarmos vislumbrar uma crítica a teoria do Estado em Nietzsche, penso que ela sempre vai ser um incômodo (singular e coletivo) para qualquer pessoa que seja seduzida pelos seus escritos. O Estado, tal como se apresenta desde sua cristianização, passando pelo modelo burguês e capitalista, se constitui mais como uma vitória do ressentimento, um acordo comum de ressentidos que vivem como uma procissão de cegos em suas neuroses buscando um dia serem sacerdotes de alguma coisa. Isto é o gozo mesquinho. Por isso a complicação de conciliar uma teoria social nietzscheana, ou algo que se compare hoje em dia, com uma exuberância da força guerreira ou criativa típica de uma sociedade aristocrática cuja excelência (Areté) é o maior bem. Talvez o último refúgio aristocrático seja mesmo o refinamento estético que ainda resiste à serialização das coisas pelo mercado, mas não sei até quando. Talvez a caverna de Zaratustra nos tempos modernos seja a caverna monomaníaca de uma solidão trágica que Freud nomeou de desamparo e que fundamenta grande parte das defesas neuróticas cuja perlaboração é condição de cura. É neste sentido que os heróis dostoiéviskianos, Robson Crusoé, Don Quixote, ou os personagens Kafkianos são tão interessantes para alguns, apesar de não serem bem modelos exatos de Grande Saúde, mas por ilustrarem essa solidão enfrentada no campo de batalha da introspectividade da crueldade humana.

Os melhores do nosso tempo, os virtuosos do mundo capitalistas, são os novos sacerdotes ascéticos. Todavia, a promessa de salvação da alma em um outro mundo, típica dos sacerdotes passados, agora se transmutou em salvação pela imediatismo do consumo que deslocou o gozo da salvação adiada para um gozo auto-erótico imediato. As ovelhas não mais são ordenadas, elas agora são administradas. Neste sentido, sim! Os melhoradores de nossa sociedade são os que perpetuam o ressentimento. Talvez seja por isso que temos atualmente toda uma tendência pedagógica que prega um ensino que deve ser prazeroso, que a criança tem que ser aprovada em qualquer circunstância, que alunos de universidade se formem sem assistir aulas, pois a presença está garantida enquanto se faz festa no bar em frente a instituição, ou ainda a massiva e maçante idéia de que devemos ser felizes, bonitos, alta performance, proativos, etc. O que está por detrás disto é uma espécie de negação da dor, ou melhor, de embotamento da coragem aristocrática de enfrentar a dor trágica inerente a vida.

O complicado em certas leituras de Nietzsche é o perigo de uma compreensão do autor a partir de uma lógica que tem o ressentimento como motor de sua racionalidade. Motor este que funciona em silêncio e camuflado pelos engodos dos feitos heróicos modernos, apresentados em tipos como o da figura do jovem milionário e bem sucedido (o do facebook por exemplo). Mas acho que ainda há resistências ante a metabolização da máquina do ressentimento, seja pela psicanálise (os poucos que mantém uma independência crítica para além de filiações com os autores), ou filosofia, ou pela arte, ou por alguma forma de racionalidade que dê com os ombros para tudo isso.

abril 5, 2011

Ante a Lei

Filed under: Uncategorized — blasfemiars @ 5:06 am
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Ante a lei

Diante da lei está parado um guardião. Desse guardião se aproxima um homem do campo e pede entrada na lei. Mas o guardião diz que não pode agora permitir-lhe a entrada. O homem reflete e pergunta então se, portanto, poderá entrar mais tarde.

— É possível — diz o guardião —, mas não agora.

Já que o portão para a lei está como sempre aberto e o guardião se posta ao lado, o homem inclina-se para, através do portão, olhar lá para dentro. Ao notar isso, o guardião dá uma risada e diz:

— Se isso o atrai tanto, tente então entrar apesar de minha proibição. Note, porém: eu sou poderoso. E sou apenas o último dos guardiões. De salão em salão estão, porém, postados guardiães, um mais poderoso que o outro. Tão só a visão do terceiro, nem sequer eu consigo mais suportar.

Tamanhas dificuldades o homem do campo não havia esperado; a lei deve ser afinal, acessível a todos, e sempre, pensa ele; mas ao olhar agora com cuidado para o guardião em seu casacão de couro, com seu narigão pontudo, a barba longa,rala, negra, tártara, ele decide que era preferível, em suma, esperar até obter permissão para entrar. O guardião dá-lhe um banquinho e permite que ele se assente ao lado da porta. Ali fica ele sentado por dias e anos. Faz muitas tentativas para que lhe seja permitido entrar e cansa o guardião com seus pedidos. Com freqüência o guardião organiza pequenas audiências com ele, questiona-o sobre sua terra e muitas outras coisas, mas são perguntas neutras, como as formulam grandes senhores, dizendo-lhe por fim sempre de novo que ainda não poderia deixá-lo entrar. O homem, que se provera de muita coisa para sua viagem, usa de tudo, por mais valioso que seja para subornar o guardião. Este efetivamente tudo aceita, dizendo, porém:

— Eu só aceito isso para que você não creia ter deixado de tentar alguma coisa.

Durante todos esses anos, o homem fica observando quase ininterruptamente o guardião. Ele esquece os outros guardiões e este primeiro parece-lhe o único obstáculo para a entrada na lei. Nos anos iniciais amaldiçoa sem peias e em alta voz o infeliz acaso; mais tarde, ao ficar velho, apenas resmunga ainda para si. Torna-se infantil e, como nos anos de estudo e contemplação do guardião chegou a conhecer até as pulgas em sua gola de peles, suplica inclusive às pulgas que o ajudem a convencer o guardião. Por fim, sua vista se torna fraca e ele já não sabe se realmente está ficando mais escuro ao seu redor ou se apenas seus olhos é que o enganam. Mas bem que ele reconhece agora, na escuridão, um brilho a brotar inextinguível lá das portas da lei. Pouco tempo de vida lhe resta. Antes de morrer, reúnem-se em sua cabeça as experiências todas daqueles longos anos em uma pergunta que até agora ele não havia colocado ao guardião. Acena-lhe para que ele se aproxime, pois já não consegue mais pôr de pé seu corpo cada vez mais hirto. O guardião precisa inclinar-se profundamente até ele, pois a diferença de tamanho entre eles alterou-se em detrimento do homem.

— O que é que você ainda quer saber agora? — perguntou o guardião. — Você é insaciável.

— Todos almejam afinal a lei — diz o homem —, mas como é que em todos esses anos ninguém, exceto eu, pediu para entrar?

O guardião reconhece que o homem já está no fim e, para ainda atingir sua audição cada vez mais debilitada, precisa gritar-lhe:

— Aqui ninguém mais podia obter permissão para entrar, pois esta entrada estava destinada somente a você. Agora eu vou embora e vou fechá-la.

(Franz Kafka, Colônia Penal)

 

outubro 28, 2010

Política, Voto nulo, debate e eleições…

Filed under: Política — blasfemiars @ 4:54 am
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Em resposta a um amigo durante uma discussão sobre voto nulo e de seu caráter por vezes infantil escrevi:

Quando falo em uma infantilidade de certos marxistas me refiro a um lugar, bastante confortável, diga-se de passagem, de uma crítica que goza e só se reconhece através do objeto de crítica, mais ou menos como um adolescente que se opõe às ordens dos pais. Com certa freqüência encontro isso e não vejo nesse tipo de crítica esquerdista nada além de um lugar de antítese que retorna numa dialética, ainda mais por que a tal revolução é bem improvável. Assim, quando faço essa crítica aponto para um questionamento do lugar de onde elas são feitas, o que indica um lugar correlato ao mesmo lugar do objeto de crítica dentro de um discurso. Não há transformação, não há superação ou suspensão (Aufhebung) na dialética (para usar um termo hegeliano), pois a ordem do discurso parte sempre da mesma posição de gozo. Ao ver pessoas justificando o voto nulo por que não compartilham nenhuma das duas posições apresentadas no pleito eleitoral não estou, de modo algum, me opondo a um direito legítimo (não critico nem o direito igualmente legítimo de votar em Serra!). Mas sim, justificar o voto por que a candidata do PT não representa mais os ideais de esquerda tal como se colocava antigamente, isso me parece uma infantilidade. Principalmente diante da circunstância onde se pode eleger um facista enrustido que usa uma retórica cínica e estratégias de desinformação nos moldes do que poderíamos facilmente chamar de terrorismo ideológico. Nesse sentido, compartilho a mesma opinião do Vladimir Safatle, pois não podemos esperar uma grande revolução, e mais, ainda chamo atenção para que não podemos esperar  ser reconhecidos como sujeitos só através de uma grande revolução. Logo, as pequenas revoluções, daquelas aos moldes hegelianos, que se acumulam em uma historicidade que nos dão suporte para continuar superando até uma maturidade do espírito, são necessárias no pleito e principalmente no dia a dia. Declarar uma posição política partidária, em tal candidato não significa dizer amém nem concordar com tudo que este candidato diz e faz. Declarar uma posição política partidária implica em circunscrever um lugar no campo político (ético) onde se pode questionar a própria pessoa em quem se votou. Isso é um exercício democrático. Na Grécia a política nasce nos debates entre os politikos, cidadãos da polis que se reuniam para discutir os destinos da sociedade. Neste sentido, escolher uma posição petista, nesse momento, é lutar para conservar pelo menos o direito de debater sem ser agredido pra PM (quem vive em São Paulo sabe muito bem o que Serra pensa sobre isso). Repare que nem estou entrando em dados, ou números que costumam servir a uma sedução ideológica para um lado ou para o outro. Quando ao livro do Lênin e a crítica à Rosa de Luxemburgo, não posso falar nada especificamente, pois eu não conheço a obra, mas posso falar de minha desconfiança em relação tanto a leituras que transportam situações e as sobrepõe a outras, quanto às intenções que posicionamentos políticos definidos em ideologias bem marcadas têm. Não é por que o partido Nazista era o lobo mal da Alemanha do começo do século 20 que deveriam ter esperado do partido Social-Democrata a posição que representa o Bem. Nem muito menos, identifico o PT à posição do Bem contra o PSDB. Tomar um debate eleitoral como uma dualidade de categorias morais é novamente voltar a uma dialética que flerta com o revezamento de posições que prescrevem ao seu modo o que é ou não melhor para o outro. Isso é a famosa alienação e na história colecionamos exemplos que mostram o fracasso disso, muitos deles em sistemas socialistas baseados em leituras marxistas coerentes com os interesses dos revolucionários. Aqui retomo a democracia como produção e conservação de direitos. Neste caso, a afirmação de uma ou outra posição política nessa eleição passa, sobretudo pela luta por essa possibilidade de continuar produzindo direitos pelo exercício de questionamento e debates (questionamento inclusive do PT) e é ai que eu acho que uma posição de voto nulo é se eximir da luta dentro de uma posição ideologicamente confortável, como uma espécie de implicação desimplicada. Dessa forma, ao pensar nesse cenário (bastante desanimador e perigosamente cínico da campanha atual) percebo algumas posições bem marcadas: a de direita, que fala por si só; a dos petistas encantados por uma infantilização que a figura sebastianista do presidente provoca; a dos esquerdistas que criticam de um lugar utópico que esperam a revolução que acabará com as desigualdades. Todas as três posições falam a partir de um lugar em que o agente do discurso só o é através da garantia do saber de um Mestre cuja imago se reveza em Serra, Dilma, Marx, revolução, “muros da desigualdade”, etc. como consequência temos um gozo que, ao depender do Mestre, produz um sujeito barrado. Ou seja, ao se ancorarem nas figuras dos candidatos ou as ideologias (sim! Muitas delas usadas de forma infantil!) eles se colocam dentro de um discurso que tem um Mestre como fiador do gozo. Afirmar uma posição política, que leva em conta também o questionamento do próprio candidato escolhido, implica um ato que pressupõe um sujeito (ter voz própria para a crítica, manifestação e debate de idéias dentro do próprio partido, grupo ou mesmo de si próprio) que por ser barrado já de início no discurso, tem seu gozo em um lugar próprio de onde ele pode questionar o Mestre e produzir um saber a partir disto. Saber este sempre em produção e que inscreve um nome próprio dentro das tensões que o desejo provoca no discurso. Resumindo, uma certa histeria faz bem no debate político, já que em seu discurso (da histérica), podemos relembrar um princípio político que Freud deixa claro no Mal-Estar que é o de um contínuo conflito das idéias com o próprio desejo e com o outro como consequência de uma civilidade que implica em uma perda de liberdade. Idéia que no campo político podemos encontrar em Nietzsche também ao chamar atenção para o valor dos valores morais, ou em Dostoiévski ao fazer o mesmo questionamento tanto para o egoísmo da racionalidade utilitarista, quanto para a religião cristã ocidental. Por isso, eu afirmo uma posição política sem, no entanto, me encantar com progressos econômicos do país. Devemos desconfiar sempre, mas nesse momento específico de Dilma VS Serra, o direito de desconfiar abertamente está seriamente ameaçado. Daí a importância das pequenas revoluções, uma a uma, ato a ato, dentro de uma política (não partidária/ideológica, mas de uma posição ética) em que, derrubar ídolos a marteladas, seja o auge de uma maturidade eleitoral. Isso por que nem vou entrar na discussão do caráter que os diferentes destinos do capitalismo pode tomar no estado brasileiro, que está explicitamente declarado principalmente na campanha de Serra.

Quanto à genealogia da imputação de infantilismo da esquerda, sinto dizer que o buraco é mais em cima. Não vejo, no meu caso, como circunscrever meu comentário na sua preciosa explanação, pois, nem esses autores fazem parte do meu campo de leitura, nem meu apontamento para o tal infantilismo partiu de uma origem que, até onde lembro, tenha saído da boca ou da pena de alguém. Minha afirmação se dá somente por observações de algumas manifestações (que lhe explico em outro lugar) infantis e pseudo-intelectuais que alguns esquerdistas, e de uma outra maneira, exposta na superficialidade crítica que alguns candidatos (como o Plínio por exemplo) demonstraram na campanha. Assim não há acusação histórica na minha crítica (só se for inconsciente…). Quanto às acusações que deslegitimam a esquerda (minha crítica é justamente para a esquerda que faz isso sozinha e não para um pensamento de esquerda mais crítico) temos que tomar cuidado com a assunção de recursos críticos dentro de um jogo de eficácia.  Quando você cita “uma forma de estabelecer diferenças” sugere uma linha “capaz de pensar a política” através de oposições dialéticas. Se na história essa forma foi usada de um jeito ou de outro, não significa nem que ela é melhor nem pior, pois a racionalidade é instrumento do sujeito, sobretudo no campo político. Se é a partir do estabelecimento de diferenças pela dialética, ou por uma via de afirmação de da vontade dentro de um jogo de forças, não podemos esquecer que tanto um entendimento quanto o outro são formas racionais organizadas na linguagem para dar conta de realidades. Daí ser precioso a possibilidade da discussão política. É por isso que questionar a eficácia diagnóstica da esquerda é importante, até por que ela também fala e faz muitas besteiras. Nesse sentido, o que coloco aqui não é a crítica como meio de destruição, coisa que acontece na direita (principalmente) e na esquerda (pelas alienações ideológicas incapazes de uma reflexividade).

Quanto ao “voto tático”, sim, estamos diante de um momento em que ele é necessário, pois pessoalmente Serra me assusta. E vejo esse voto, na circunstância que estamos como uma espécie de redução de danos. Não posso deixar de tratar um viciado só por acho que “drogas mata!”, que é errado consumi-las, e por que o ideal seria não tomá-las. Há algo além do princípio do prazer que sustenta o vício, assim como há algo além do princípio do prazer que sustenta posições políticas, discurso, determinações de desejos, cultura, etc. Por isso, a clínica está dentro de uma política, de uma estratégia e de uma tática. Termos estes que Lacan tira de um autor da guerra chamado Clausewitz para pensar um tratamento psicanalítico. Volto a dizer, não estou falando mal da esquerda, estou apontando o esperneio de alguns que votam nulo só por que acham que assim serão mais “politizados”.

Ao citar Hegel na minha crítica, novamente, não estou com isso endossando tudo que o autor coloca, mas as suspensões ocorridas na história são muito úteis como recurso de compreensão política, clínica, histórica. No entanto, ela tem limites que muitas vezes se encontra na própria pessoa que o utiliza. No meu caso, apesar de recorrer a dialética no campo da historicidade, não concordo com o Hegel que a liberdade se dá com e a partir do Estado. Nesse ponto sou muito mais Hobbes/Freudiano, pois penso que é o estado e a civilização que vem para humanizar o homem em um processo que implica uma perda de liberdade. Por esta via podemos abordar o questionamento de Nietzsche sobre os valores morais por dar a linguagem um caráter sexualizado e sempre tendendo para uma “promessa de felicidade”. Por outra via podemos trazer a discussão sobre o gozo em Lacan. Gozo que só se apresenta pelo significante como também, justamente por esta via que ele torna impossível. Portanto, uso o Hegel de acordo com meus propósitos, afirmar isso é fundamental, pois usar um autor não é fazer reverência a ele repetindo apaticamente suas posições nem muito menos aplicando-as sem critérios.

Gosto de sua posição em relação ao Benjamin, mas ao mesmo tempo acho necessário dizer que a minha crítica ao infantilismo de alguns marxistas se aplica justamente ao que você recortou, a saber, alguns posicionamentos da esquerda, apesar de parecerem críticos e opositores, são parte da correnteza. Em alguns casos navegar contra a correnteza faz parte do curso da própria correnteza. Essa é a falta de reflexividade em alguns campos da crítica, que acabam operando um exercício de poder através da vitimização do militante, mas que mantém um discurso gozoso. Essa é a implicação desimplicada, e a posição confortável que falei a pouco. Nesse sentido, não o voto nulo que está em jogo, mas suas razões que, como coloquei, muitas vezes são bem infantis. Mas sim, concordo que ele pode ser também uma marca de diferença, assim como pode ser um voto na Dilma também (não vou considerar isso no caso do Serra por eu realmente não acredito que haja possibilidade de nenhum avanço nele).

Quanto à utopia da esquerda considero que ela tem seu lugar. Mas novamente chamo atenção para o ascetimo que ela assume facilmente. Ascetismo esse também presente na direita, pois eles, de modo geral, também devem acreditar em um mundo melhor. Mas acho que no caso da esquerda, a utopia por vezes se transforma numa crítica pela crítica, ou um exercício de questionamento baseado em um ideal que paradoxalmente aliena o sujeito. Ou seja, tomar cuidado com a utopia significa prestar atenção para não ser gozado por ela, não ser gozado por um Outro que ocupa uma mestria imaginarizada em formas diversas. Ao me referir a uma política (ética), essa ética entre parênteses serve para apontar um campo em que não podemos ceder do nosso desejo, ou seja, achar que uma ética pura que exclui o páthos do campo da ação existe é um grande engano, logo, somente levando em conta o desejo (do analista) é que se pode conduzir um tratamento na direção de um final. Assim, quando vejo opiniões guiadas por utopias, não só vejo uma pessoa que goza sendo gozada como também vejo um exercício de autoridade disfarçada de boas intenções. É daí que se segue toda uma discussão filosófica a respeito do Bem e do Mal que vem desde Sade até Lacan. Tema este que trabalhei a partir de Dostoiévski em minha tese.

Ainda no campo da utopia, acho que podemos reivindicar os 10% do PIB sim e mais, temos que encher o saco da Dilma por isso, temos que enjoar, incomodar, cobrar do governo isso. Volto a dizer, quem vota em um candidato pode e deve cobrá-lo até o fim. Aliás, quem não votou no vencedor também tem que cobrar e quem votou nulo também. Se o socialismo francês dá sintomas de falência, ou se o capitalismo americano começou a entrar em colapso, isso é prova que não existe fórmulas eficazes. Conviver com estas tensões e lidar com seus constantes resultados é importante para o amadurecimento político e para o próprio campo singular. Alguns lêem um pessimismo no texto do Mal-estar, assim como alguns lêem um pessimismo (não sei como!) em Nietzsche. Mas não vejo outros autores (existem outros também) que me apresentem um pensamento político como cura (Sorge) da cultura, ou do próprio sujeito, como eles apresentam. O pessimismo que alguns conseguem ler neles, as vezes me parece uma formação reativa diante de uma ameaça a utopia, à fantasia, a esperança (o pior dos males da caixa de Pandora!). Quando falo nesta cura me refiro a simplesmente dá uma voz ao quem fala. Voz essa que é o que eu insisto ser o fundamental no debate político, voz essa que eu não escuto no marxismo infantil em que o pseudo-crítico é falado por uma ideologia que representa um Bem. Assim, no momento em que o “salto do tigre” não é possível, no momento em que temos que evitar um mal maior, eu prefiro dá os pequenos pulos de uma criança que brinca com seriedade.

junho 25, 2010

O Estrangeiro de si mesmo

Filed under: Uncategorized — blasfemiars @ 2:56 pm

Ando com a sensação de ser estrangeiro de mim mesmo. Quando falo em “ando” pode parecer que este acontecimento é recente, mas a estranheidade é devida ao fato de perceber que o meu estrangeirismo vem de muito longe em minha vida. Sempre fui estrangeiro, deslocado, estranho – unheimlich. Descobri isso pensando na trajetória de minha vida. Quando criança meus melhores amigos e as companhias que me sentia bem foram os dogue-alemães que criava em casa. Depois foram os boxers, rotweillers, Bordeauxs, os galos de briga, os peixes, os comandos em ação. Na escola nada me interessava nas pessoas. E isto foi se repetindo até hoje. Sempre pensei que tinha um problema e, para tentar compensar, exercitava uma espécie de mimetismo das relações humanas baseados nos fatos e histórias que parecia interessar as pessoas. Mas nada disto nunca afastou de mim o sentimento de não pertencimento e de desinteresse. Cresci em uma cidade em que valores pequeno-burgueses fazem até hoje cintilar os olhos das pessoas. Não tenho críticas em relação a tais interesses, mas eles não são os meus. Imaginem viver com amigos que não são amigos, não por que eles são falsos, mas por que eles não me despertam emoções para além do formal da educação. Em outro lugar já assumi ser um “homem doente”, claramente faço alusão a Dostoiévski. Foi através de autores como este que comecei a ter companhias. Talvez o primeiro que teve grande impacto tenha sido Nietzsche, depois Dostoiévski, Freud, Lacan. Cito estes por comporem o quarteto que alinha minha visão de mundo, mas existem outros. Meu estrangeirismo ficou mais evidente de uma forma paradoxal. A partir de experiências que pude falar a mim mesmo: “é disso que eu gosto”. Todo resto de coisas que vivi, depois deste momento, caíram em suas consistências ilusórias de prazer. O vetor que apontava para o meu problema partindo do modelo de sanidade do mundo, agora, foi invertido. Das unheimilchkeit! Minha Grande Saúde apontou lá na vivência estética de algo que realmente me situou. No entanto, sou também meu passado, sou inscrito na minha própria história e não posso denegá-la. Quando falo este óbvio que qualquer um pode concordar é para assumir um laço que me prende, ainda me prende. “Deixe-me ir preciso andar”. Tento a todo instante. Pode parecer que desejo obliterar minha história para começar outra. Errado, só não quero ser estrangeiro em minha própria história. O andarilho e sua sobra não se prendem. Só se pode ser andarilho ao se desapegar de seu lugar. “E se alguém perguntar diga que eu só vou voltar depois que me encontrar”. A repetição agora engendra o novo e circula em eterno retorno, pois não há tempo a perder. Ser um homem doente não é amar a patologia, assumir isto é rir dela, é brincar com a ordem que sempre me situou justamente na incapacidade de me divertir diante das coisas que todos gostam, de gostar das músicas que todos gostam, de me interessar pelo que todos gostam. “Todos” são as almas vulgares que navegam no rio onde a crítica foi afogada. Meu caminho de andarilho me levou a lugares demasiadamente simples, levou-me a apenas às coisas que realmente me interessam. Uma delas é o simples exercício de concatenar idéias em um texto escrito. Resolvi escrever hoje depois de ler alguns blogs. Nenhum extraordinário, mas todos de mulheres que escrevem de forma desinteressadamente feminina, com beleza e delicadeza de quem flui no curso do próprio desapego à rigidez. A escrita é feminina, a beleza da escrita depende da capacidade do autor de feminilizar as palavras quando elas copulam em busca de um além do sentido desinteressado. A Lispector é quase um paradigma disto, com sua correnteza de palavras como numa polução contínua. Quando falo em desinteresse não quero dizer displicência, nem indiferença, mas sim, o desinteresse em relação à ordem rígida e formal. A forma é fisiologia, é sensualidade, é interesse sexual da carne que clama. É por isso que não há frieza nos textos das mulheres, a não ser quando elas querem o suicídio a própria beleza que nem se imagina ter. Meu elogio a escrita feminina é também um desejo de alcançá-la. O estrangeiro, Eu estrangeiro, só o é pelo aprisionamento em uma forma que o mata, me mata. As formas que me mataram e que ainda me matam são rígidas no envidramento do olhar do outro que meu eu paranóico teme em sua perseguição. O vidro frio do olho é a própria formalização do lugar que supostamente me tornaria reconhecido. Tornar-me idêntico a imagem do olho, este é a ordem. Idêntico, palavra infame. Se a substantivarmos teremos identidade, aquilo que nos dá uma idéia de nós mesmos. Qual a identidade do estrangeiro? Ele vem de fora. De onde? De algum lugar. Não sei minha identidade por que não quero mais ser idêntico. O estrangeiro e o andarilho se unem em uma só pessoa. O “milagre, o mistério, a autoridade” caíram, agora só resta meu Sendo.

junho 22, 2010

O sacerdote ascético

Filed under: Uncategorized — blasfemiars @ 5:39 pm

“Há três forças, as únicas que possam subjugar para sempre a consciência desses fracos revoltados, a saber: o milagre, o mistério, a autoridade!” (O grande Inquisidor)

maio 14, 2010

Cartel…

Filed under: Uncategorized — blasfemiars @ 6:33 am
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Na ocasião da dissolução de um Cartel sobre Nietzsche e a psicanálise eu escrevi aos demais:

Cartel. O dispositivo criado por Lacan para contrapor a formação ordenada pela tradição subseqüente a Freud. Dentre outros motivos é preciso levar em conta o contexto, o zeitgeist no qual a idéia de cartel foi concebida. Esta observação aponta para a expulsão de Lacan, para a impossibilidade de manter os embates no campo epistemológico – como o próprio Lacan lamenta no Discurso de Roma -, e mesmo as questões políticas e ideológicas das quais nem a IPA nem Lacan estavam imunes.

Sua proposta é ousada e no mínimo interessante e nos remete ao que em 1956 – Situação da psicanálise em 1956 – Lacan criticava o sistema de formação da IPA. Cito Lacan: “Pois no uso que é feito dos conceitos freudianos, como não ver que a significação deles não serve para nada? E no entanto, não é a outra coisa senão sua presença que se pode atribuir o fato de a associação ainda não se haver rompido, dispersando-se na confusão de Babel.”(Escritos pp489.). Ou seja, a crítica de Lacan à IPA dá a entender que se trata de uma Babel cujo laço de união diante no desentendimento generalizado é a figura do Pai morto.

A aposta na proposta do cartel é romper estas uniões cegas, romper com o que podemos ilustrar com o quadro “Parábola dos Cegos”, de Peter Bruegel. No entanto, ainda tenho dúvidas da eficácia efetiva deste dispositivo, ou mesmo se a sua eficácia não dependeria de uma transferência com o mestre Lacan, ou com a transferência com a escola, ou algum outro mestre pertencente a ela. Na minha desconfiança existem dois elementos agudos: o primeiro diz respeito à própria condição neurótica, neste caso coloco os componentes do cartel e suas formas de fazer laço como elemento paradoxal, pois é o que une e desune. A agonística pulsional freudiana se faz presente como atual apesar de suscitar críticas. O Segundo elemento jaz na minha petulância histérica de querer sempre questionar. Por que não questionar o cartel, ou Lacan, ou Freud, ou Nietzsche? Identifico-me ao discípulo de Zaratustra que só o é assim reconhecido por questioná-lo. Neste caso o Discurso do Universitário falha, e o Discurso da Histérica, que em certa época foi identificado ao discurso científico, entra em cena.

A solidão zaratustriana do questionador tem um preço. Ela exige que se pague um preço, talvez uma libra de carne… Ou talvez mais. Todavia ela rompe com a procissão dos cegos, mas sem desnorteá-los justamente por que eles nunca tiveram norte. Agora se pode afirmar “Eu escolho meu próprio Norte”. Tal solidão não implica dizer que Nobres não se encontrem. Mas implica dizer que todo encontro de escravos é desencontro na medida em que eles são cegos que se enganam escrevendo muito e dizendo pouco (talvez eu esteja fazendo isto aqui, caso esteja, o faço sorrindo).

Com a dissolução do cartel me veio uma pergunta: será que este cartel resistiu a Nietzsche? Parto do princípio de que é impossível passar incólume à leitura dele. Neste sentido, a própria escolha do objeto de estudo do cartel pesou como mais um elemento – considero como outro elemento o atrito contingente das relações humanas – revelador da impostura que o desejo neurótico cria. O martelo de Nietzsche foi alçado ao alto, mas antes que pudesse derrubar ídolos, a precaução de mantê-los foi rapidamente escolhida como saída.

Na ética nietzscheana não cabe olhar quem quer que seja com piedade, ou compaixão. Apostar nesta via é jogar com forças para erodir a coragem e a nobreza. Na ética nietzscheana há afirmação, há “direção a um alvo último: pois este não há.” Esta direção não olha para o lamento, ou melhor, corta o olhar para o lamento do sofredor – amor fati seja este doravante o meu amor!

Mais do que usar categorias de algum autor, ou mesmo as de Nietzsche, o percurso próprio e solitário digno de um andarilho não tem compaixão com suas referências. Talvez isto seja a melhor forma de respeitá-los. Depois de destruir os ídolos e questionar o valor dos valores morais pouca coisa restará. Mas este resto é o que há de mais singular.

No nosso final confesso: “Eu sou um homem doente”, do subsolo talvez, mas minha doença, grave doença, é somente um grito de vida que, mesmo reconhecendo as ilusões do mundo, não prescinde de sentir na carne a tragédia e a comédia humana. Tragédia no sentido mesmo de ir em direção do problema, pois ele é a própria condição humana, e comédia de atravessá-lo, de tornar o tal problema uma solução, uma afirmação, um urro de uma dor e um prazer pungente.

Diante da ocasião o andarilho me surgiu na lembrança. E é com ele que termino:

“Quem chegou, ainda que apenas em certa medida, à liberdade da razão, não pode sentir-se sobre a Terra senão como andarilho — embora não como viajante em direção a um alvo último: pois este não há. Mas bem que ele quer ver e ter os olhos abertos para tudo o que propriamente se passa no mundo; por isso não pode prender seu coração com demasiada firmeza a nada de singular; tem de haver nele próprio algo de errante, que encontra sua alegria na mudança e na transitoriedade. Sem dúvida sobrevêm a um tal homem noites más, em que ele está cansado e encontra fechada a porta da cidade que deveria oferecer-lhe pousada; talvez, além disso, como no Oriente, o deserto chegue até a porta, os animais de presa uivem ora mais longe ora mais perto, um vento mais forte se levante, ladrões lhe levem embora seus animais de tiro. E então que cai para ele a noite pavorosa, como um segundo deserto sobre o deserto, e seu coração se cansa da andança. Se então surge para ele o sol da manhã, incandescente como uma divindade da ira, se a cidade se abre, ele vê nos rostos dos quais aqui moram, talvez ainda mais deserto, sujeira, engano, insegurança, do que fora das portas — e o dia é quase pior que a noite. Bem pode ser que isso aconteça às vezes ao andarilho; mas então vêm, como recompensa, as deliciosas manhãs de outras regiões e dias, em que já no alvorecer da luz ele vê, na névoa da montanha, os enxames de musas passarem dançando perto de si, em que mais tarde, quando ele, tranqüilo, no equilíbrio da alma de antes do meio-dia, passeia entre árvores, lhe são atiradas de suas frondes e dos recessos da folhagem somente coisas boas e claras, os presentes de todos aqueles espíritos livres, que na montanha, floresta e solidão estão em casa e que, iguais a ele, em sua maneira ora gaiata ora meditativa, são andarilhos e filósofos. Nascidos dos segredos da manhã, meditam sobre como pode o dia, entre a décima e a décima segunda badalada, ter um rosto tão puro, translúcido, transfiguradamente sereno: — buscam a filosofia de antes do meio-dia.” (humano demasiado humano, parágrafo 638)

fevereiro 24, 2010

Carolina Magalhães em bate papo!

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Nesse exato momento está acontecendo um bate papo com a Carolina Magalhães no UOL. Vocês não sabem quem é Carolina Magalhães? ora, ora, ora! A neta de Antônio Carlos Magalhães. E o que ela faz? Adivinha: “modelo e atriz “.

Bem, eu não resisti e resolvi entrar no chat pra fazer três perguntas: 1) Se ela pretendia algum dia interpretar Sófocles ou Shakespeare; 2) Como ela se sente sendo neta do imaculado Antônio Carlos Magalhães; 3) Se ela pretende algum dia fazer um filme pornô.

Infelizmente não obtive nenhuma resposta. O curioso, no entanto, foi um comentário dela sobre as “celebridades” do BBB:

Não gosto de desmerecer o talento dos outros.Mas já está claro que vem vai para o Big brother está atrás da fama.A fama é o sonho da vida dele.O meu sonho por exemplo é ter um programa , assim vou poder trabalhar fazendo o que gosto.Fama é consequencia…

Bastante espirituosa essa garota que quer trabalhar com programa. Parabéns Carolina!

A “exuberância” do carnaval baiano – Parte II

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Outro dia postei sobre o novo sucesso do carnaval baiano, o “Lobo Mau”. Confesso que fui injusto ao não mencionar outros grandes sucessos, tais como “Vale Night” e “Rebolation” . Essa última, composta pelo “genial” grupo chamado “Paragolé”, tem a seguinte letra:

(…)

Rebolation é bom, bom Rebolation é bom, bom, bom (7x)

Bota a mão na cabeça que vai começar
O Rebolation, tion o rebolation, o rebolation, tion, rebolation
O Rebolation, tion o rebolation, o rebolation, tion, rebolation

Alo minha galera preste atenção Rebolation é a nova sensação
Menino e menina não fiquem de fora que vai começar o pancadão
O suingue é bom gostoso de mais
Mulheres na frente os homens atrás

Mão na cabeça que vai começar
O Rebolation, tion o rebolation, o rebolation, tion, rebolation
O Rebolation, tion o rebolation, o rebolation, tion, rebolation

Rebolation é bom, bom Rebolation é bom, bom, bom
Rebolation é bom, bom. Se você fizer fica melhor (2x)

(…)

A letra continua se repetindo em acordes e melodias inebriantes. Uma verdadeira obra de arte!
Antes de concluir esse breve post, gostaria de fazer um protesto: multaram um trio elétrico em salvador por lançar dejetos na rua durante a folia. Ora, isso é uma perseguição! Proibir os dejetos em pleno carnaval baiano já é demais…

PS: Acabei de ouvir um apresentador de TV anunciar com certa euforia: “E hoje temos o tradicional arrastão que marca o fim do carnaval de salvador”. (silêncio…)

ARTE… ARTE?

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Dia 14 de fevereiro, 05:12 da manhã e estou acordado pensando em uma coisa que não sai da minha cabeça. Por duas vezes ontem eu me deparei com Preta Gil ao assistir TV. Imediatamente me veio à cabeça o seguinte pensamento: se o mundo acabar e só restar o DVD de Preta Gil? E se centenas de anos após o apocalipse povos alienígenas pousarem na terra e encontrarem como única referência da nossa civilização o DVD de… Preta Gil?

Logo fui auto-retrucado por um pensamento bastante juvenil: e quem liga para que os outros pensam? A resposta é que todos ligam. O sujeito pensado em sua política está circunscrito nas teias de relações que determinam várias categorias, sentidos, formas, e relações que o definem para si e para o outro. Sempre ligamos para o que os outros pensam e principalmente para o que pensamos que os outros pensam. A fantasia neurótica se constrói através disso, do olhar do outro que ao nos enquadrar de certa forma fixa um eu-ideal que engendra um ideal-de-deu. Eu-ideal no registro imaginário, do que se apresenta, e ideal-de-eu no registro simbólico, que fornece sentido.

É dessa forma, por exemplo, que um nome e um sobrenome (da família) nos representa. Quando falamos nosso sobrenome estamos nos referindo a toda uma história carregada de sentido que se atualiza a cada sujeito que se singulariza na família. Mesmo depois de morto um integrante dessa família tem um lugar representativo pelas marcas deixadas nos corpos de cada um através de significantes comuns. Esta é uma preocupação que penso ser comum que pessoas têm em conduzir-se durante a vida de forma a orgulhar e deixar algo célebre em torno desse nome da família.

É aí que reside minha preocupação com os alienígenas. Sou um ser humano e esta condição me inclui na lógica de pertencimento desta espécie do mesmo modo como meu sobrenome me faz pertencer a minha família, ou seja, é minha condição humana me faz sentir na família dos humanos. Então penso: o que os alienígenas pensarão dos humanos – minha família e conseqüentemente Eu! – quando abrirem o DVD da Preta Gil? A resposta que veio à minha mente foi: “e eles(humanos) mesmo assim conseguiram sobreviver vários séculos…”

Como se já não bastasse minha vergonha em relação a uma possível posteridade interplanetária, ainda tive o desprazer de assistir uma comercial da NET “estrelado” por Claudia Leite. Isso mesmo, nossa estrela maior do axé no esplendor de sua esquizofrenia hebefrênica cantando uma versão para a NET de um dos seus sucessos. O choque de realidade foi inevitável. Estava diante de Preta Gil e Claudia Leite, duas representantes ilustres da classe artística brasileira.

Outro questionamento foi inevitável: o que é um artista? Logo duas referências conduziram minhas ruminações: Nietzsche e Bataille. Parece brincadeira eu pensar nestes dois pensadores depois de encontrar as duas Musas[1] citadas…

A concepção de ambos os pensadores sobre o artista se alinham tendo em vista que Bataille foi fortemente atravessado pelas leituras de Nietzsche. O artista em Nietzsche é um afirmador da vontade, sem inclinações para a culpa ou a má consciência o artista age de forma a criar sem justificativas ou por quês. Sua arte tem sempre um interesse, uma promessa de felicidade por estar sempre inclinada as vontades do corpo, da “fisiologia estética”. Bataille relaciona o artista com a morte, com a disposição a um sacrifício de si pela sua arte, assim a experiência do artista é extática, similar a experiência da morte. Nesta experiência, o artista reencontra a pureza das coisas abstraindo-as de seu sentido utilitário.

No entanto, Nietzsche adverte que os artistas ao facilmente corrompidos pelos aplausos, observação endereçada diretamente a Richard Wagner por este ter, segundo Nietzsche, feito Parsifal um herói cristão.

Mensurar a distância da concepção de artista para Nietzsche e Bataille em relação a Preta Gil e Claudia Leite é uma tarefa fácil porém muito trabalhosa – devido a infinita distância. De acordo com estes pensadores, elas nada têm de artistas. Nelas só existe a disposição a fazer qualquer coisa por palmas, como uma espécie de micos[2] amestrados que ganham agrados do treinador durante apresentação no circo. Porém os micos de hoje além de não serem nada afirmadores da vontade, eles ganham agrados milionários para macaquearem.

Acabei de dizer que artistas como as duas citadas nada afirmam. Diriam mais ainda, elas negam a vontade, elas entorpecem a apreensão estética de tal forma que temos como resultado um consumo sem desejo. Mas, como isso é possível?  Suprimindo a experiência de morte da arte, tirando a embriaguez e a desmesura que flerta com um indizível que a arte possui. A experiência de morte – de sem sentido – que a arte pode fornecer é completamente evitada em nome da produção em série de satisfações mesquinhas.

Por que satisfações mesquinhas? Chamei dessa forma por considerar que os consumidores de arte como as músicas de Preta Gil e Claudia Leite são muito mais gozados do que gozam. A mesquinhez está no quão pouco há de embriaguez e experiência no sentido erótico – que tende à morte, ao gozo quase dissociativo, com a satisfação completa das pulsões – e na forma limitada como se reproduz estas artes, ou seja, é uma arte produzida em massa e reproduzida de acordo com o cliente, o que compromete o próprio sentido do que é ou não arte e sua função. Desta forma, a arte é produto?

Temos ai duas vias para pensar. Se a arte é produto ela é feita para alguém, e se alguém consome, há também um mobilizador desse produto que o une como objeto a um desejo. O que me impressiona no caso da arte dessas cantoras é que há a criação de uma demanda de consumo para a oferta que será empurrada. Ou seja, há uma falência na capacidade de se defender, através da crítica, contra o que nos é oferecido como produto e mais ainda no próprio entendimento de arte, como algo que nos reposiciona, e que agora nos é oferecido como um produto – a exemplo da música de Claudia Leite que além de ser ruim no original ainda foi transformada em vinheta comercial. Um verdadeiro artista submeteria sua arte a isto?

Entendo que o que Bataille fala de experiência mortífera da arte, ou o que Nietzsche fala de embriaguez ou da fisiologia estética tem a ver com o incômodo ou a reoganização engendrada no ser que a arte proporciona. Há uma produção de saber proporcionada pela arte tanto no sentido do artista que cria quanto no efeito causado no expectador. Tal saber, mesmo que seja um saber que não se sabe, dá a chance de novos olhares na medida em que o expectador descentra seu próprio olhar. Este saber é uma produção singular do sujeito feita a partir do ponto fundamental de onde ele engendra suas significações.

Entretanto, pensando na arte de Preta Gil e Claudia Leite, o que vejo é um engessamento da capacidade de mobilização dos recursos simbólicos para lidar com a estética.  O Saber que entra em circulação pode ser agora compreendido como uma mercadoria que pode aparecer tanto com uma consistência simbólica, como imaginária. Ele passa a ser regido por uma moral utilitária que se converte num valor de moda que pode ser compartilhado com outros semelhantes. Talvez seja por isso que essas artistas façam tanto sucesso.

Obviamente utilizei-as como exemplo devido ao encontro com elas na TV, mas incluo no mesmo hall toda geração de artista criado ou metabolizado pelas seduções capitalistas do nosso tempo. Se perceberem não tem mais artista que afirma uma palavra, mas sim artistas que se alinham ao politicamente correto e moralmente desejado mesmo com eventuais máscaras rebeldes. O artista diz o que é desejável dizer. Diz o que dentro da lógica do mercado é o mais facilmente consumível. O erótico que me referi acima passa para uma relação de uso, sem mediações que remetam à alteridade. E assim vai carnaval de Salvador, pré-caju, Akon, Beyoncé, Madona, Jesus Luz… rsrsrs viva!


[1] Evidentemente eu usei o termo Musa de forma irônica. As Musas são, na mitologia grega, entidades responsáveis pela inspiração dos artistas em seus processos de criação.

[2] No mundo de hoje temos que dar satisfação de tudo que ameace o politicamente correto. Sendo assim, quando me refiro a mico ou a macaquear não faço nenhuma alusão étnica à Preta Gil ou à bahianidade de quem quer que seja.

A “exuberância” do carnaval baiano – Parte I

Filed under: Uncategorized — blasfemiars @ 1:40 am
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\”Lobo Mau\”, cantada por Ivete Sangalo.

\”Lobo Mau\”, cantada por Preta Gil.

Eis dois videos do novo sucesso do carnaval de salvador. O primeiro deles é cantado pela rainha desse gênero musical extremamente criativo chamado Axé. Quem nos agracia com o segundo video é a talentosa Preta Gil, o orgulho  do papai. Os vídeos e os comentários dizem tudo a respeito do estatuto do carnaval baiano e de seus ídolos.

Só uma nota: enquanto eu estava escrevendo esse post sobre o video exclusivo de Ivete Sangalo, pensei “Não vai demorar até Preta Gil começar a cantar também. Será que ela já não cantou?” Fui procurar… Bingo! Para a minha felicidade encontrei a preciosidade baiana.

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